14 março 2007

por Arnaldo Antunes
"Sempressa"
Publicado no livro PALAVRA DESORDEM (2002)





10 março 2007

no meu canto,
tantos cantos
e canções

pensamento longe,
para eu não ficar
no meu canto
que me expulsa
para não fazer pulsar
aquilo que teima
e queima

sozinha vôo
e vou
atrás do encanto
que me faz cantar
que eu quero tanto
um canto
para me encontrar

08 março 2007

Ele chega devagar como uma brisa fresca que toca um corpo quente, quase febril. Como um vento leve no ar parado, pesado, com tanto em suspensão. Ele abre a porta devagar e aparece quase sem querer e se revela delicadamente e tenta fugir com medo de ficar e... sumir. Ele vem de mansinho porque não quer matar e teme morrer- ele quer viver: sobreviver é muito caro... Ele sonha achando que pensa e pensa para não ver o que quer sonhar. De longe ele vem, tão longe, que precisa voltar. E volta: se perdendo, encontrando, quase chorando. Para um coração que transborda, ter um lar é uma missão, morar é ser, pertencer é legitimar uma vida. Seu olhar triste tem um porquê, assim como sua beleza, sua esquiva, sua luta. Ele vai para não ficar mas fica e finca, tanto!, no coração de quem o sente. Devagar, ele chega e vai, como um temporal que destrói e transforma e traz alívio ao limpar o céu... tão seu.

05 março 2007

De você o presente eu ganho
E nos tornamos instante
Dura-ação deixar-te
Quero deixar-me em ti
Não, não vou evitar
Aquela porta se abriu
E eu atravessei a ponte
Sob a permissão dos olhos teus
Que me guiam
Pro lugar que é meu
E teu
Abrigo
Que protege
E faz demorar
Mas passa correndo
Destruindo nosso lar
Que se constrói
No instante
Que o presente
Nos dá
A duração
De estarmos lá

04 março 2007

Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver


Tem mais samba- Chico Buarque

26 fevereiro 2007

“(...) Parece que a espera faz o vazio em nós, que prepara a retomada do ser, que ajuda a compreender o destino; numa palavra, a espera fabrica localizações temporais para receber as recordações. Quando o acontecimento claramente esperado sobrevém - novo paradoxo-, ele nos aparece como uma clara novidade. Nada se passa como havia sido previsto; o acontecimento vem assim ao mesmo tempo satisfazer e frustrar nossa espera, justificar a continuidade da localização racional vazia e impor a descontinuidade das recordações empíricas. Todos os que sabem desfrutar de uma espera, mesmo ansiosa, reconhecerão com que arte ela urde o pitoresco, o poético, o dramático. Ela faz o imprevisto com o previsto. (...) A espera, ao escavar o tempo, torna o amor mais profundo. Ela coloca o amor mais constante na dialética dos instantes e dos intervalos. Dá a um amor fiel o charme da novidade. Então os acontecimentos ansiosamente esperados se fixam na memória; adquirem um sentido em nossa vida. As grandes recordações são assim o desfecho do drama de um dia, de uma hora. São a recompensa de uma recusa prévia a viver outra coisa além do que aquilo que se deseja. É adiando as ações medíocres, obstinando-nos em prever o imprevisível, que nos preparamos para ser ricamente contraditados pela felicidade. Contradizendo-nos, o acontecimento se fixa em nosso ser. A assimilação dialética é a própria base da fixação de nossas recordações. Não há memória acidental sem um drama inicial, sem uma surpresa dos contrários”.

Gaston Bachelard, em “A dialética da duração”, pág. 49.

25 fevereiro 2007

buscando por palavras
fugindo do sentido
do que se sente
indo para não ficar
na distância que consome
tanto,

tão
próximo
próximo
próximo ao meu corpo são
que teme e treme
nu
nu
nus, seus olhos distantes-
que me desaparecem
e me criam
e me deixam
assim
buscando por palavras
que fogem
mas querem
mais
assim

24 fevereiro 2007

Acorda, menina
O trem da sua espera passa
É hora de partir

Diga adeus aos seus que ficam
Cumprimente o céu que vai
Levante do seu sono leve
Não é mais hora de dormir

Dê-me sua mão que pede
Mostre seu sorriso, vai
Guarde com você o medo
Traga a nossa alegria

Vê aquela estrela alta?
É o meu coração
Mire com seus olhos puros
Cante a nossa canção
que o sol vai já nascer...

Um novo dia chega
Pro seu destino seguir
Venha com seus passos lentos
A vida quer te assistir

16 fevereiro 2007

eu quero um samba pra me aquecer
quero algo pra beber,

quero você
peça tudo que quiser
quantos sambas agüentar dançar
mas não esqueça do seu trato
da hora de parar
só vamos embora

quando tudo terminar
eu vou te levar

aonde você quer chegar
eu tenho a chave

nada impede a vida acontecer
deixe-se acreditar
nada vai te acontecer
tudo pode ser
nada vai acontecer, não tema
esse é o reino da alegria


Deixe-se acreditar
Mombojó

12 fevereiro 2007

Solidão embotada
Ansiando ser flor

Um olhar ingênuo
mirando uma luneta
para ver o brilho de um astro
que não mais existe

Luzes frenéticas
Modulando o ritmo
Revelando a crueza
Do que escapa

Crianças correndo
Velhos parados
morrendo

Solidão
desabrochando
tornando-se rosa
tocando com espinho
a mão que lhe arranca
ferindo

09 fevereiro 2007

Hendrix no fundo, a chuva lá fora e eu aqui. Sexta à noite, semana de retomada, reencontros e desencontros, para não faltar. Incômodos, saudades e planos se concretizando, a vida segue, afinal. Não tenho lembrado dos meus sonhos, meu sono anda na medida e a energia, de sobra. Bom ouvir Hendrix, há tempos tenho sentido vontade, mas me faltava coragem. Metrô lotado hoje de manhã. De um lado uma senhora simpática se equilibrando e fazendo Sudoku. “Encaixa o 8 naquela fileira”, eu mentalizava. E ela completava a lacuna em branco com o número que eu havia pensado. Mas ela colocou o 1 na coluna errada, tudo se complicou no final e eu cansei, já tinha gastado muito da minha telepatia... Para não me concentrar na sensação de um homem me encoxando por atrás, procurei outro foco de atenção. Um moço, coitadinho, lia “Em busca de um sentido”. Tentei ler um tópico sobre vazio existencial, mas não agüentei. Estava muito preenchida naquele momento. Corpos se tocando, cheiros, trocas inevitáveis: eu já viajei muito nessas idéias, hoje me irrito mais. Vida de peão não é fácil, mas não sei se eu largaria, é bonita. Eu camelando por aí, "minha vida não poderia ser outra", é fato. E eu gosto disso.


Manic Depression's touching my soul,
I know what I want,
but I just don't know how to go about getting it.
Feeling, sweet feeling
drops from my finger, fingers
Manic Depression's captured my soul.
Woman so willing the sweet cause in vain,
you make love,
you break love,
it's-a all the same when it's...when it's over.
Music sweet music,
I wish I could caress, caress, caress.
Manic Depression's a frustrating mess.
Well, I think I'll go turn myself off an' go on down.
Really ain't no use me hanging around.
Oh, I gotta see you.

Manic Depression
Jimi Hendrix

07 fevereiro 2007

O olhar
Ele sabia provocar. Não via a poesia nos olhos dela: reconhecia sua resistência a cada surto poético. E ela gostava. Querendo sempre se proteger e se vestir de mistério, se excitava imaginando que ele via outra além daquela que ela cismava em mostrar. Ela deitada, ele atento. O silêncio de sempre: o que não poderia ser dito, o que gostaria de ser expresso, uma amostra da falta, do vazio, do desejo... Dois em um, um em dois, vários. O poente na janela e ela se segurando para não tagarelar as metáforas do sol se pondo. Ele já a havia descoberto- não faria mais sentido. Pensamento longe, perto do céu. Um choro no fundo, mãos inquietas, peito aberto e apertado. E ele lá, com ela: era disso que ela precisava.

04 fevereiro 2007

Aqui tudo tão vivo:
Um mundo à parte
com vida e cor
Seus olhos meus
Sua boca na minha
E minha solidão compreendida

Aqui te tive
No meu mundo colorido
Na nossa natureza morta

O mistério dos seus olhos
Me penetrando
E eu fugindo para ter
Sua doçura amarga
E seus pés delicados
Me ferindo
a cada coreografia dançada

Ilusões em encontro
Você de um lado
Eu de outro
Encontros ilusórios
Dissimulados
Quase reais

Você foi e vai
E nunca fica

Suas palavras mudas
Não mais me tocam
Na esperança te procuro
E no sonho choro,

Vê se me acorda
Vamos brincar

02 fevereiro 2007

Odoiá, Odoiá, Iemanjá
Rainha das Ondas, sereia do mar
Como é belo seu canto, senhora!
Quem escuta chora, mãe das águas, do oceano, soberana das águas.
Dê-me sucesso, progresso e vitória.
Abra meus caminhos no amor e cuide de mim.
Que as águas sagradas do oceano lavem minha alma e meu ser.
Abençoe, mãe, minha família e meus amigos.
Permita que o amor seja nossa maior fonte de energia.
Sou suas águas, suas ondas, e a senhora cuida dos meus caminhos.
Iemanjá, em seu poder eu confio. Axé!

Dia dois de fevereiro

Dia de festa no mar

Eu quero ser o primeiro

A saudar Yemanjá


Escrevi um bilhete pra ela

Pedindo para ela me ajudar

Ela então me respondeu

Que eu tivesse paciência de esperar

O presente que mandei pra ela

De cravos e rosas chegou

chegou, chegou, chegou

Afinal que o dia dela chegou

chegou, chegou, chegou

Afinal que o dia dela chegou


Dois de fevereiro- Dorival Caymmi



29 janeiro 2007

Se você vier
Pro que der e vier comigo
Eu te prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto esse canto de amor
Se você quiser e vier
Pro que der e vier comigo
Comigo
Comigo

Dia Branco
Geraldo Azevedo e Renato Rocha

23 janeiro 2007

Assisti “O Céu de Suely”, hoje.
Essencial, segundo algum crítico.
No final do filme, concordei.
Talvez seja o céu o nosso único chão.

18 janeiro 2007

Um passo para fora e a visão do absurdo
Sempre na corda-bamba, sempre
A busca pelo estável
- nada além que a inércia
“Isso eu já tenho”
Medo, medo
Do aniquilamento ou do não-ser?
Eu saio e vibro
Uma vibração trêmula,
o medo e a excitação
Não, não quero ir, eu já disse
Prefiro definhar afogada no que eu só sou
um corpo quente e vulnerável
- tenho febre e ânsia
Saia daqui!, por favor
(mas fique, eu imploro)

fecho a porta e as janelas
apago as luzes
e ainda consigo ver

o escuro

16 janeiro 2007

Me dê um beijo, meu amor
Só eu vejo o mundo com meus olhos
Me dê um beijo, meu amor
Hoje eu tenho cem anos, hoje eu tenho cem anos
E meu coração bate como um pandeiro num samba dobrado
Vou pisando asfalto entre os automóveis
Mesmo o mais sozinho nunca fica só
Sempre haverá um idiota ao redor
Me dê um beijo, meu amor
Os sinais estão fechados
E trago no bolso uns trocados pro café
E o futuro se anuncia num out-door luminoso
Luminoso o futuro se anuncia num out-door
Há tantos reclamos pelo céu
Quase tanto quanto nuvens
Um homem grave vende risos
A voz da noite se insinua
E aquele filme não sai da minha cabeça
E aquele filme não sai da minha cabeça
Rumino versos de um velho bardo
Parece fome o que eu sinto
Eu sinto como se eu seguisse os meus sapatos por aí
Eu sinto como se eu seguisse os meus sapatos por aí
Há alguns dias atrás vendi minha alma a um velho apache
Não é que eu ache que o mundo tenha salvação
Mas como diria o intrépido cowboy, fitando o bandido indócil
A alma é o segredo, a alma é o segredo
A alma é o segredo do negócio


Balada do Asfalto

Zeca Baleiro



10 janeiro 2007

E UM CORAÇÃO PARADO NÃO FABRICA POESIAS