08 agosto 2006

Silêncio!

O silêncio pede

na presença, cumplicidade

Paz: completude e solidão

Ausência

na indiferença, opressão

o primeiro

a vida se preenchendo com ruídos

o último

a morte

O silêncio grita

( )

02 agosto 2006

No sun will shine in my day today
(No sun will shine.)
The high yellow moon won't come out to play
(Won't come out to play.)
Darkness has covered my light (and has changed,)
And has changed my day into night
Now where is this love to be found, won't someone tell me?
'Cause life, sweet life, must be somewhere to be found, yeah
Instead of a concrete jungle where the livin' is hardest
Concrete jungle, oh man, you've got to do your best, yeah.
No chains around my feet, but I'm not free
I know I am bound here in captivity
And I've never known happiness, and I've never known sweet
caresses
Still, I be always laughing like a clown
Won't someone help me?
Cause, sweet life, I've, I've got to pick myself from off the
ground, yeah
In this here concrete jungle,
I say, what do you got for me now?
Concrete jungle, oh, why won't you let me be now?
I said that life must be somewhere to be found, yeah
Instead of a concrete jungle, illusion, confusion
Concreate jungle, yeah
Concrete jungle, you name it, we got it, concrete jungle now
Concrete jungle, what do you got for me now

Bob Marley, Concrete Jungle

01 agosto 2006

NÃO SOLTAR OS CAVALOS

Como em tudo, no escrever também tenho uma espécie de receio de ir longe demais. Que será isso? Por que? Retenho-me, como se retivesse as rédeas de um cavalo que pudesse galopar e me levar Deus sabe onde. Eu me guardo. Por que e para quê? Para o que estou eu me poupando? Eu já tive clara consciência disso quando uma vez escrevi: "é preciso não ter medo de criar". Por que o medo? Medo de conhecer os limites de minha capacidade? Ou medo do aprendiz de feiticeiro que não sabia como parar? Quem sabe, assim como uma mulher que se guarda intocada para dar-se um dia ao amor, talvez eu queira morrer toda inteira para que Deus me tenha toda.

Clarice Lispector, em "Para não esquecer"

28 julho 2006




pés no chão,

cabeça no alto

27 julho 2006

falta-me ar, inspiração!
a ausência se apresenta, única
desencontros eu encontro
ao caminhar, à espreita, atrás da porta, pelo buraco da fechadura
me escondo, esperando que me encontrem
as palavras não me fazem sentido
hoje, não sei dizer nem quero falar
inspiração, cansei de esperar.

17 julho 2006

Como de costume, habitar outros mundos era pelo que ela ansiava e esperava por uma mão para guiá-la por aí... Ela imaginava como seria quando encontrasse aquele lugar, aquele cheiro, aquele sabor. Ela conseguia imaginar como seria, ela sabia sonhar. "Somos sempre tentados a limitarmo-nos a sonhar", ele disse. Ela achou bonito (ela, ao lado dele, conseguia ver a beleza das coisas)...
Ela estava animada, um ânimo diferente de quando deitava a cabeça no travesseiro e vivia o mundo que ela mesmo criava. Quando olhou-se no espelho, sentiu uma familiaridade com aquilo que viu, sentiu que aquele era o seu lugar. O seu corpo era o mundo que podia habitar, e só. Aquele corpo era o seu lugar no mundo.
A mão que poderia guiá-la era a dela: ela poderia tocar as coisas, alcançá-las, sentir suas formas e temperatura. Suas mãos poderiam criar, ferir, acarinhar, destruir. Ela via e sentia com as mãos: elas tinham olhos, tato, línguas, audição; elas farejavam para saber onde se segurar e do que fugir; apontavam para seus pés, mostrando que eles poderiam levá-la para além-mundo.
Andando, ela passou a tatear para encontrar mãos que não a guiassem, mas que provocassem seu encontro com o mundo- que era esse, só.
POR UM LINDÉSIMO DE SEGUNDO

tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas

Leminski, em "distraídos venceremos"

16 julho 2006

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar.

Quero assistir o sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir o pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar.

Se alguém por mim perguntar,
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar...

Quero assistir o sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir o pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver...

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar.

Cartola_Preciso me encontrar

10 julho 2006

Hoje a natureza teve uma crise de choro, dessas que lava a alma. Eu gosto de chuva, da mesma forma que eu gosto do calor e do frio também. Eu preciso de ciclos. Preciso sentir minha ovulação, minha tensão pré-menstrual, minha menstruação e a sensação que vem depois dela.
Lembrei do filme “Primavera, verão, outono, inverno e... primavera”, do diretor coreano Kim Ki-Duk. É um filme bonito, permeado pela filosofia zen-budista, que conta a história de um monge-aprendiz que vive com seu mestre num templo flutuante e, sincronizado à natureza, vai lidando com seu crescimento e aprendizado. A fotografia é linda e o enredo é bonito por ser simples: por mostrar a violência, o desejo, o medo, o amor com a mesma naturalidade que mostra os ciclos da natureza.
A natureza é mulher: é fértil, é regida por regras, tem a potência criativa latente e precisa do homem para fecundá-la. A mulher tem sua natureza: é frágil, é forte, sabe cuidar e precisa ser cuidada. Ser mulher, naturalmente, é sentir e viver os ciclos da sua natureza.

08 julho 2006

"Há certas presenças que permitem a transfiguração"

(Clarice Lispector, em "Perto do coração selvagem")

05 julho 2006

Uma das primeiras coisas que fui foi ser filha de Iemanjá. Nasci Marina morena do Caymmi, Marina do mar. Sou filha da cidade grande, cidade do concreto, da solidão no meio da multidão. Mas uma das primeiras coisas que fui foi ser filha de Iemanjá: rainha generosa das águas, deusa da fecundidade, fertilidade, transformação, amor. Tenho um respeito e um fascínio pelo mar que me arrepia a pele quando coloco o pé na areia. O mar me inspira, me ensina a ter paciência, me faz acreditar na minha força. Mesmo no meio do concreto, o que me rege é a vibração do mar...
Odoiá Iemanjá!
... saudades do Mar.

04 julho 2006

não tenho tido muita vontade de escrever.
estou preocupada, eu sei, mas não sei com o quê eu ando me ocupando. vou para lá, volto pra cá, arrumo meu guarda-roupa, ouço algumas músicas, faço umas listas do que eu preciso e quero fazer, mas mesmo assim não me contento, não sei o que é!
algumas conversas, alguns esclarecimentos, vagas lembranças... sonhos?! poucos...
durmo até tarde, quando acordo não sei o quê vestir, quero ir até aí- mas não hoje.
apareço, vejo que as coisas estão iguais, pouca coisa mudou: algumas histórias diferentes, mas os mesmos dramas.
o ar está seco, o vento gelado e minhas mãos, frias.
"faz tempo que eu não choro", pensei antes de dormir.

e, quando acordei, estava com minha garganta doendo.

28 junho 2006

"O amor nunca termina de exprimir-se e se exprime tanto melhor quanto mais poeticamente é sonhado. Os devaneios de duas almas solitárias preparam a doçura de amar. Um realista da paixão verá aí apenas fórmulas evanescentes. Mas não é menos verdade que as grandes paixões se preparam em grandes devaneios. Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade."

Gaston Bachelard, "A poética do devaneio".
não estou conseguindo olhar para além do que me ocupo, não estou tentando pré-ver aquilo que eu não sei aonde vai dar. só, quero voltar a ver aquilo que eu não sei. cansei disso tudo que, simplesmente, é.

21 junho 2006

"(...) o que resta é o ato heróico do desafio contra o destino e a natureza. A condição do homem é essa luta, a despeito do fracasso. A redenção vem da beleza produzida pela consciência da condição trágica. (...)"

Bernardo Carvalho
Ilustrada_ Folha de São Paulo_ 20/06/06

20 junho 2006

estava procurando por um sopro de vida. queria me surpreender novamente com a coerência das coisas, (re)descobrir aquilo que não se vê quando o que se quer é ver as coisas simplesmente passarem. tentava lembrar das vezes que a vida apareceu, das vezes que tudo se deu tão claramente que desviei os olhos, obrigada a ver com a não-razão. recorri à minha memória, às minhas questões e, por que não?!, às minhas respostas (embora elas me mostrassem sua própria fragilidade). lembrei, então, dos momentos em que eu mais senti a vida, das vezes em que eu vivi a morte mais de perto... a morte desnuda a vida, arranca todas as suas vestes e leva consigo parte da sua pele, expondo o que se quer esconder- o pudor, o medo, o ódio, o desejo bruto, o nada. nada... nada... lembrei de quando, menina, eu me forçava a sentí-lo (o nada): fechava os olhos, destruía o meu redor, meu bairro, minha cidade, estado, país, continente, mundo, galáxia e me excitava ao sentir a vertigem do vazio, que me mostrava o absurdo das coisas. eu queria chorar, fugir do abismo, mas não conseguia fugir da vontade de não-sentir: e continuava o exercício de acabar com tudo. estava procurando por um sopro de vida e me lembrei que, aquilo por que eu procurava- o sentido da vida, era um sentimento. estava querendo, então, desviar os olhos, me obrigando a enxergar com a não-razão.

11 junho 2006

No meu quarto deixei as lágrimas
E o desencanto
Carreguei comigo a minha solidão
As cores mudaram de tom
E as luzes cegaram minha vista
Passo um passo
Mas eu não encontro o chão
Pois ainda estou a sonhar
Com você a me beijar
Perdi os sentidos
Não tenho mais direção
Todos os caminhos
Me levam à oração
Ah, desencanto
Ah, desencanto

ouvindo Mombojó_"Desencanto"

09 junho 2006

e depois de ver crua, a carne, ela só queria sentir na pele.

05 junho 2006

"Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo."

Pessoa, F.