20 setembro 2007
Perdeu o sonho e sorriu. Abriu a gaiola e ele escapou: seu lugar era o céu. Pés no chão, cabeça pousada no abraço, fincada num espaço que se habita. Perdeu o céu e ganhou um chão: que parecia uma porta ou um sofá para se sentar. E o viu ao seu lado, refletidos na tela, e os olhares se cruzando e ela tentando fugir e sumir mas ele não deixava e a criava num lugar no espaço seu... O tempo corria rápido no peito e no silêncio era suspenso e contava o que não se pode pedir... “Mas eu não quero brincar, só quero ficar e pousar no seu abraço que me protege e me deixa voar no corpo seu que me cobre e encolhe meus sonhos por me dar a vida que espera lá fora enquanto estamos brincando que tudo existe, quando estamos a sós...”
14 setembro 2007
03 setembro 2007
Respinga
O resmungo
Da voz que não cansa
De respirar
Respinga
E quase molha
Um corpo que almeja
O desejo de transpirar
Resmunga
Desdenha
Desenha
O chão que sustenta
E suspende meu corpo
No ar
Explica
Suscita
Me excita
E minta
Que o pavor da tua voz
É me ver, de vez,
Entrar
Murmura
Teu grito
Me cala com o açoite
Que é o silêncio
E resmunga
E respinga
A dor do teu corpo
Ao me entregar
O resmungo
Da voz que não cansa
De respirar
Respinga
E quase molha
Um corpo que almeja
O desejo de transpirar
Resmunga
Desdenha
Desenha
O chão que sustenta
E suspende meu corpo
No ar
Explica
Suscita
Me excita
E minta
Que o pavor da tua voz
É me ver, de vez,
Entrar
Murmura
Teu grito
Me cala com o açoite
Que é o silêncio
E resmunga
E respinga
A dor do teu corpo
Ao me entregar
30 agosto 2007

“Procelária”
Sophia de Mello Breyner- 1967
É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha, o cabo, o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer, seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
24 agosto 2007
A mulher tem que ter coragem para se entregar porque toda entrega é um ato artístico. E a arte não é feita assim, de qualquer jeito. O artista espera. Se inspira. É fecundado. Gesta. Faz nascer. Alimenta. A natureza da mulher é ontologicamente artística. Talvez venha daí a pouca visibilidade da mulher na arte, ao longo da história. As obras femininas são expressas cotidianamente nos bastidores. Há tempos já intuo que uma das diferenças marcantes entre homem e mulher é a questão do tempo. A mulher se demora mais, o tempo da gestação... Faz sentido isso? Talvez. Taí um tema para um bela tese.
Fim do meu inferno astral, tempo de eu aniversariar.
E eu nasci no Dia Internacional da Igualdade da Mulher: intrigante isso.
Fim do meu inferno astral, tempo de eu aniversariar.
E eu nasci no Dia Internacional da Igualdade da Mulher: intrigante isso.
10 agosto 2007
"Agora, para romancear a vida, não é preciso encontrar destinos grandiosos. Basta enxergar o detalhe que sempre está presente num canto escuro da realidade cotidiana, ao alcance de uma ampliação fotográfica."
.
Contardo Calligaris
em seu artigo sobre o cineasta morto Michelangelo Antonioni,
publicado na Ilustrada, na Folha de São Paulo, em 09/08/07
08 agosto 2007
31 julho 2007
16 julho 2007
PIRATA
"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento como os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo desse sonho e nunca durmo."
Sophia de Mello Breyner
declamada por Maria Bethânia
no "Mar de Sophia"
"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento como os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo desse sonho e nunca durmo."
Sophia de Mello Breyner
declamada por Maria Bethânia
no "Mar de Sophia"
03 julho 2007
27 junho 2007

Cais
Milton Nascimento/Ronaldo Bastos
Milton Nascimento/Ronaldo Bastos
Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar
25 junho 2007
“É assim porque escolhemos viver na montanha-russa...”, ele disse. Era de uma clareza estranha, talvez eu começasse a me ver de fora. O olhar que eu buscava estava em mim, assim como o filme que se assiste no momento da morte... os momentos indo como a coluna se recompondo vértebra a vértebra e um fio dourado as puxando, alinhando o que sustenta. Talvez da forma inversa, mas talvez seja assim... da transcendência à solidão à liberdade ao encontro ao retorno à luz ao natural. Ir para voltar e dar o desfecho e o sentido e o sabor de um instante que se prolonga, a vida ávida. Eu era tocada, assim como tudo mais que é criado por mãos que tateiam dando a forma..., e tudo é. Se o tudo existisse, poderia ter o meu nome e ser aquele dia... mas faltou você.
21 junho 2007
UM PATO FEIO
Mas foi no vôo que se explicou seu braço desajeitado: era asa. E o olho um pouco estúpido, aquele olhar estúpido dava certo nas larguras. Andava mal, mas voava. Voava tão bem que até arriscava a vida, o que era um luxo. Andava ridículo, cuidadoso. No chão ele era um paciente.
Clarice Lispector, em "Para não esquecer"
Mas foi no vôo que se explicou seu braço desajeitado: era asa. E o olho um pouco estúpido, aquele olhar estúpido dava certo nas larguras. Andava mal, mas voava. Voava tão bem que até arriscava a vida, o que era um luxo. Andava ridículo, cuidadoso. No chão ele era um paciente.
Clarice Lispector, em "Para não esquecer"
16 junho 2007
"Falta tanta coisa na minha janela
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero
Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo
Sei lá,
Se o que me deu foi dado
Sei lá,
Se o que me deu já é meu
Sei lá,
Se o que me deu foi dado ou se é seu
Sei lá... sei lá... sei lá....
Vai saber,
Se o que me deu , quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salva
Vai saber,
O que me deu, quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salva..."
Sobra tanta falta
Teatro Mágico
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero
Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo
Sei lá,
Se o que me deu foi dado
Sei lá,
Se o que me deu já é meu
Sei lá,
Se o que me deu foi dado ou se é seu
Sei lá... sei lá... sei lá....
Vai saber,
Se o que me deu , quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salva
Vai saber,
O que me deu, quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salva..."
Sobra tanta falta
Teatro Mágico
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