04 dezembro 2006

eu não sou daqui também marinheiro
mas eu venho de longe e ainda
do lado de trás da terra
além da missão cumprida
vim só dar
despedida

filho de sol poente
quando teima em passear
desce de sal nos olhos
doente da falta de voltar

filho de sol poente
quando teima em passear
desce de sal nos olhos
doente da falta que sente do mar

vim só dar despedida
vim só dar despedida




Despedida- Marcelo Camelo

30 novembro 2006

"COMO TODOS OS VÃOS SONHADORES,
CONFUNDIA O DESENCANTO COM A VERDADE"
Sartre, em "As palavras"

27 novembro 2006

Segredos revelados
Promessas descumpridas
Intensidades diluídas
O vento me espalhando por aí
Não posso ficar, só sei partir
Saindo dos trilhos, me perco
Nosso destino é esse
vendados, atravessar pontes
nus, ultrapassar barreiras
juntos, só ir

24 novembro 2006

Por onde vou guiar o olhar que não enxerga mais
Dá-me luz, ó deus do tempo

Dá-me luz, ó deus do tempo
Nesse momento menor
Pra eu saber teu redor


A gente quer ver horizonte distante
A gente quer ver horizonte distante


Aprumar

Através eu vi, só o amor é luz
E há de estar daqui até alto e amanhã
Quem fica com o tempo
Eu faço dele meu e não me falta o passo, coração

E não me falta o passo, coração

Avante

A gente quer ver horizonte distante
A gente quer ver horizonte distante


Aprumar


Horizonte distante- Marcelo Camelo

19 novembro 2006

Eu desviava os olhos, não podia fazer diferente
E você aparece como quem não tivesse partido
Nós lado a lado
E os sonhos não-vividos
Estavam agora nas minhas mãos
Quase sem eu perceber
Seu desejo assustador
No meio a alucinações e confissões

Um pedido parecendo um eco distante
Um sussurro longínquo tão próximo ao meu corpo
Eu queria parar o tempo para guardar o instante
Em que sua nudez me transtornou

A revelação se deu sem a minha espera:
Eu ali
Você aos meus pés
Nós
Se desfazendo
Como corpos castos se entregando à perdição
- Não!
Você desaparecia lentamente ao me tentar
Tornando-me insensível ao me tocar
Nós de todos os lados
E ao te ter, eu nos perdi

12 novembro 2006

A quem me sustenta o olhar
Me cedendo um corpo
Legitimando minha loucura sã
Com a mão na minha ferida
Ao me oferecer um espelho

A quem me tem
E me quer

Ao seu ódio
Sua boca
Seu desejo
Sua farsa

gratidão

09 novembro 2006

As sensações não me enganam
e hoje eu não preciso dizer nada
- nada é só o que sei

A certeza das incertezas
A continuidade dos caminhos descontínuos
A impressão de que um passo a mais é um passo a menos:
o que passou é o que ficou
e o que é pode vir a ser

Entre fugas, esconderijos, medos
Entre olhares que se cruzam e se evitam
Entre encontros que se desencontram

As palavras que tocam
As músicas que perseguem os caminhos...
hoje é o que eu posso ser,
na esperança cruel que sustenta as ilusões, os sonhos e o futuro

O por vir se delineando nas mãos de um artesão
que delicadamente se alia ao tempo
Tempo que revela e apaga

Te espero? Acho que sim
A busca pelo o que não se sabe o que é,
a teimosia do querer

Seus olhos fugitivos que eu não sei para onde olham
mas que eu quero para mim

Devaneios tão particulares e tão comuns
Distâncias que aproximam
Desejo que escapa e se esconde
(sossego)
Desejo de união e solidão

Palavras –mistério
Silêncio que fere e alimenta
A ausência possibilitando a existência
A presença revelando a indiferença

Sonhos:
reminiscências do que já foi
e anseio do que será

mais um dia, mais uma noite, mais um você
nem uma palavra, nem uma imagem
nenhum, ninguém

08 novembro 2006

vestindo sua camisa de força

dentro da gaiola entreaberta

ele, olhando pela janela,

ansiava pela liberdade

que não lhe era cedida

06 novembro 2006

Era um delírio danado
De queimar as pestanas dos olhos
Um tremor batendo no peito
E esse adeus, que tem gosto de terra

Ah! Meu amor!
Não se entregue sem mim
Ah! Meu amor!
Eu só quero avoar



ABOIO AVOADO- Zé Rocha

30 outubro 2006

A esperança é um inseto
Que pica e envenena
A esperança voa
Mas não com a mesma beleza
Que os pássaros e as borboletas
A esperança é uma mosca tsé-tsé
Que contamina com a doença do sono

25 outubro 2006

Sua enorme inteligência compreensiva, aquele seu coração vazio de mim que precisa que eu seja admirável para poder me admirar. Minha grande altivez: prefiro ser achada na rua. Do que neste fictício palácio onde não me acharão porque- porque mando dizer que não estou, “ela acabou de sair”.



“Acabou de sair”, Clarice Lispector
em “Para não esquecer”

22 outubro 2006

Meu coração tá batendo
Como quem diz não tem jeito
Zabumba, bumba esquisito
Batendo dentro do peito
Teu coração tá batendo
Como quem diz não tem jeito
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito
Coração bobo, coração bola
Coração balão, coração São João
A gente se ilude dizendo
Dizendo já não há mais coração

'Coração bobo', Alceu Valença

19 outubro 2006

Dentre tantos mundos, o meu eu escolhi
Mundo meu, mando eu
Fugindo, aprendi que não há saída
Já estou no lugar para onde eu quero ir
Mundo cão, além-mundo
Mundo mudo, cego, surdo
Mundo puro, mundo puto
Mundinho medíocre, ‘mundão’
Criado
Sagrado
Imanente
Transcendente
Mundo meu, mundo seu, mundo nosso
Mundo plano, mundo redondo
Mundo planeta
Terra, fogo, água, ar
Mundo carne, sangue, ossos, fluídos
Mundo-muda
(O mundo muda)
mundo EU, meu deus!

17 outubro 2006

Lembrei da mulher na China
que se sentia acariciada
com o pouso de uma mosca
em sua pele.
Tive vontade de chorar.

16 outubro 2006

“Não precisamos de satélites
Quem carece de cabos?
Ondas invisíveis?
Pra quê?
Pra quê?
Eu só preciso
Das minhas pernas
Pra chegar até você
Mas eu só
preciso
das minhas pernas
Pra chegar...
Até você
Pra processar minha mensagem
Só ouvidos não bastam
Eu quero que você veja
Mais do que o outro vê
Você não me desliga
Eu não desligo você...”

Ouvindo “Ligação direta”, Mundo Livre S/A

É só o calor voltar para eu não conseguir ficar aqui dentro... para onde ir?
Saí por aí, reencontrei algumas das minhas fantasias
O ar quente, mormaço, o sol que esquenta e queima
Pele à mostra, corpos pedindo proteção
Crianças na beira d’água, sorriso pueril
O pensamento voa, como o avião que ultrapassa as nuvens
“O céu, o sol, o mar”, a música que não desgruda do ouvido e faz lembrar o verão
Verão, ócio, futuro
Reencontrei algumas das minhas fantasias
Vontade de me esconder no mato, de ser livre à beira mar
“Tudo é tão simples, não?! A gente que complica...”
A tentativa de camuflagem na natureza, de fusão com os instintos naturais
De fugir retornando ao original
“O quê?! Não entendi...”
Abro o jornal, alguns filmes em cartaz
‘Pintar ou fazer amor’ que, segundo a crítica, são duas formas de reencontro com a natureza (talvez... eu penso, “hoje eu não quero pensar”)
O concreto não absorve a chuva
Concreto, concreto
“Abstrai isso, vai...!”
É melhor eu sair por aí, mesmo...

11 outubro 2006


René Magritte
Quem liberta o furacão?
Desamarra o mar da praia?
Desarruma o rumo, entorta o prumo,
Erra sem destino, amor?
Quem desata o céu da terra,
Desfere a flecha, rasga o ar?
Tire a luz da treva, razão aterra,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo apenas sendo

Sentimental

Quem me tira o chão dos pés?
E movimenta as marés, quem
Semeia o pé de vento do pensamento,
Erra sem destino, amor?
Desintegra o grão na terra,
Desagrega o coração,
Tira o véu dos olhos,
Desperta os poros,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo todo apenas sendo

Sentimental

Quem desarrazoa, quem
Abraça o rio, arrasta o raio, quem
Avassala o medo, repete o erro,
Erra sem destino, amor?
Faz qualquer coisa de mim,
Quebra a pedra com seu sim,
Arrepia o pelo,
Derrete o gelo,
Erra, desatina amor?
Quem move o mundo todo sendo

Sentimental

Sentimental (Lenine/ Lula Quiroga/ Arnaldo Antunes)

10 outubro 2006

Para se estar perto, uma certa distância
Distâncias que limitam
Limites que demarcam
Fronteiras do confronto, da divisa, do encontro
Encontros que ultrapassam a barreira
Barreiras entre o mundo e o não-mundo
Entre o eu e o não-eu
Entre o eu e o outro
Barreiras que esbarram nos limites,
tentativa de invasão das fronteiras
O confronto entre dois, entre muitos, entre um
A guerra inevitável,
terrivelmente bela
Uma certa distância, para se estar perto

06 outubro 2006

Era tudo tão... que...
Não cabia em alguma compreensão, impossível de ser apreendido
Era-lá, era-ela, era-tudo-assim... tão...
Um susto bom, um frio na barriga... e o calor
O calor do escuro, do fechado, do calado
O escuro do que não se pode ver porque não se quer
Porque a luz apaga o que a sua ausência ilumina
O breu aceso, isso...
Um susto que não cessa, a espera do condenado pela execução
O desejo da Morte
Morte da luz que ilumina
O acesso à escuridão que liberta
É tudo tão... que...

02 outubro 2006

Resposta ao Tempo
Aldir Blanc/Cristovão Bastos

Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Um dia azul de verão, sinto o vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar e eu também não sei
E gira em volta de mim, sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer


(um brinde ao acaso)