31 julho 2007

Insone, faltava o sonho.
No escuro, o susto:
só o sussurro do surto.
Insano, faltava o sono.

-O repouso é vertigem para os que não dormem.
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- Não solta da minha mão...






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21 julho 2007


Se cerrasse os olhos,
a lágrima escorreria:
teria, então,
permissão para fugir

***


16 julho 2007

PIRATA

"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento como os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo desse sonho e nunca durmo."

Sophia de Mello Breyner

declamada por Maria Bethânia
no "Mar de Sophia"

11 julho 2007

(...)
Para ir para frente,
alguns passos para trás,
para dar impulso
(...)

03 julho 2007

Ouvindo “Third Stone From The Sun”, Jimi Hendrix


ENTENDIMENTO
Todas as visitações que tive na vida, elas vieram,

sentaram-se e não disseram nada.

Lispector, em “Para não esquecer”

27 junho 2007


Cais
Milton Nascimento/Ronaldo Bastos

Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar

25 junho 2007

“É assim porque escolhemos viver na montanha-russa...”, ele disse. Era de uma clareza estranha, talvez eu começasse a me ver de fora. O olhar que eu buscava estava em mim, assim como o filme que se assiste no momento da morte... os momentos indo como a coluna se recompondo vértebra a vértebra e um fio dourado as puxando, alinhando o que sustenta. Talvez da forma inversa, mas talvez seja assim... da transcendência à solidão à liberdade ao encontro ao retorno à luz ao natural. Ir para voltar e dar o desfecho e o sentido e o sabor de um instante que se prolonga, a vida ávida. Eu era tocada, assim como tudo mais que é criado por mãos que tateiam dando a forma..., e tudo é. Se o tudo existisse, poderia ter o meu nome e ser aquele dia... mas faltou você.

21 junho 2007

Sonhou que era cicatriz.
Mas a ferida não fecha, dói.
Inflamada e infeccionada, pulsando,
com a ilusão incômoda de que doer é sentir.
“Sinto muito”, disse.
Talvez isso: doida da vida e doída dos sonhos.
UM PATO FEIO

Mas foi no vôo que se explicou seu braço desajeitado: era asa. E o olho um pouco estúpido, aquele olhar estúpido dava certo nas larguras. Andava mal, mas voava. Voava tão bem que até arriscava a vida, o que era um luxo. Andava ridículo, cuidadoso. No chão ele era um paciente.

Clarice Lispector, em "Para não esquecer"

18 junho 2007

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dessas coisas que me intrigam:
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POR QUE NO CONTRA-FLUXO TUDO FLUI?
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16 junho 2007

"Falta tanta coisa na minha janela
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero
Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo

Sei lá,
Se o que me deu foi dado
Sei lá,
Se o que me deu já é meu
Sei lá,
Se o que me deu foi dado ou se é seu

Sei lá... sei lá... sei lá....

Vai saber,
Se o que me deu , quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salva
Vai saber,
O que me deu, quem sabe?
Vai saber,
Quem souber me salva..."


Sobra tanta falta
Teatro Mágico

15 junho 2007

fantasma ou estrela:
você escolhe o nome
pr’aquilo que existe
no lugar do que morreu

os fantasmas assombram
as estrelas iluminam
o sono e o sonho
de quem pensa
que esqueceu

tudo o que vai, fica:
brilhando ou assustando
aquilo que a morte,
de presente,
para a vida deu

12 junho 2007

Sua voz a constrangia, por isso permanecia calada. Não se atrevia a quebrar o silêncio. Nada, nada poderia quebrar. Ao redor, tudo cristal- o barulho todo cristalizado: o silêncio. Calada, ouvia vozes fundidas. Fluía truncada, trocada por ela, por ele, “essas trocas fáceis...”- como se fosse fácil trocar. Sabia que não e compreendia, como se compreender a tornasse mais real, mas sabia que não e calava. Muda, queria também não ter olhos e queria não ter modos e formas: e fundir, fugir, latir- como um cão sem dono, sua forma original. Entre gente correndo incerto comendo credos restos com dentes com medo, completo.

11 junho 2007

E no meio da ebulição pansexual, o feminino se revelou:
“Coloca a sua cigana pra dançar que ela é linda...”
E a minha pomba-gira celebrou.


-Mas se você é parte de mim, eu sou maior do que você...



***


ACOLHEDORA


ela-colher
sorve
a sorte
de ser mulher

07 junho 2007

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MUDANÇA
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nua na dança
ela-muda
feito criança
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04 junho 2007


Calados
Pés descalços
Perseguem
O risco
E o riso
Atravessando
A corda
Que bambeia
Um coração
Calejado

01 junho 2007

“PORQUE A COBRA
JÁ COMEÇOU A COMER
A SI MESMA PELA CAUDA,
SENDO AO MESMO TEMPO
A FOME E A COMIDA”


Tom Zé
em “Complexo de Épico” (1973)

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e você me salvou
ao me ferir
que somos dois
enquanto eu,
algumas só

29 maio 2007

olhos insanos
me tiram do sono
de sonhar acordada
me criam no espaço
me tiram um pedaço
me dilatando
e dilacerando
o que quer caber
em mim

28 maio 2007

Troca o fusível
Torna possível
A luz

Tudo que reluz é hora:
O agora chama
A carne viva
(que conhece a farsa)

Pega a faca
Corta a mágoa
Mata o sonho
E faça:
O Aqui