15 novembro 2007

Aflição de ser eu e não ser outra
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera
Aflição de te amar, se te comove
E sendo água, amor, querer ser terra
*
"Aflição", de Hilda Hilst

10 novembro 2007

Canto Nietzschiano*
Gustavo de Castro

E aquele, entre os homens, que não quer voltar ao pó,

É preciso antes que comece a cantar em qualquer canto
um canto de dor.
E aquele, entre os homens, que não quer gestar intrigas,
É preciso antes que aprenda a calar em todas as línguas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer de solidão,
É preciso antes que comece a beijar todas as bocas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer sem verdade,
É preciso antes que aprenda a acreditar em todas elas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer de tédio,
É preciso antes que aprenda a ser todos de todas as maneiras.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer íntegro,
É preciso antes que saiba silenciar todas as falas.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer sensível,
É preciso antes que saiba sentir tudo de todas as maneiras.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer são,
É preciso antes que saiba ter todas as loucuras.

*declamado por Antonio Abujamra, em 07/11, no programa "Provocações"

26 outubro 2007

... você ao me lado e tão só, de uma solidão tão confortável que me faz acreditar que é assim: e ao seu lado rodopio como bailarina ou uma criança numa roda gigante...

16 outubro 2007

"Por algum tempo desisti de escrever, há um excesso de verdade no mundo, uma superprodução que aparentemente não pode ser consumida." (Otto Rank)

08 outubro 2007


- É tempo de pitanga!

03 outubro 2007

(...)“Os pecados mortais clamavam em mim por mais vida, e clamavam com vergonha, os pecados mortais em mim pediam o direito de viver. Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo, e a fome com que nasci pelo leite, essa fome quis se estender pelo mundo, e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível, sim, mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava. Mas a fome violenta é exigente e orgulhosa, e quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os simples, e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes, eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito, e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor pelo mundo me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver - e eu pensava que esta, sim, é livre. Mas como foi que transformei, sem nem sentir, a alegria de viver na grande luxúria de estar vivo? No entanto, no começo era apenas bom e não era pecado. Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo, era uma avidez de luxúria pelo mundo. E o mundo de novo se retraiu, e a isso chamei de traição. A luxúria de estar vivo me espantava na minha insônia, sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme, que até se dorme, meu Deus. E a água, na minha luxúria de viver, a água se derramava pelos dedos antes de chegar à boca. E eu amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Eu não sabia que só o meio-termo não é pecado mortal, eu tinha vergonha do meio-termo. Os pecados são mortais não porque Deus mata, mas porque eu morro deles. Eu é que não pude arcar com os pecados mortais. O que não consegui com eles, é isso que hoje me violenta e a que respondo com violência."(...)


UMA IRA, em "Para não esquecer", Clarice Lispector

20 setembro 2007

Perdeu o sonho e sorriu. Abriu a gaiola e ele escapou: seu lugar era o céu. Pés no chão, cabeça pousada no abraço, fincada num espaço que se habita. Perdeu o céu e ganhou um chão: que parecia uma porta ou um sofá para se sentar. E o viu ao seu lado, refletidos na tela, e os olhares se cruzando e ela tentando fugir e sumir mas ele não deixava e a criava num lugar no espaço seu... O tempo corria rápido no peito e no silêncio era suspenso e contava o que não se pode pedir... “Mas eu não quero brincar, só quero ficar e pousar no seu abraço que me protege e me deixa voar no corpo seu que me cobre e encolhe meus sonhos por me dar a vida que espera lá fora enquanto estamos brincando que tudo existe, quando estamos a sós...”

14 setembro 2007

-NO QUÊ EU ACREDITAVA QUE JÁ NÃO EXISTE?

11 setembro 2007

Panamericano (2004)
Beatriz Milhazes
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. . . Um pouco de cor nessa vida, em você . . .
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03 setembro 2007

Respinga
O resmungo
Da voz que não cansa
De respirar

Respinga
E quase molha
Um corpo que almeja
O desejo de transpirar

Resmunga
Desdenha
Desenha
O chão que sustenta
E suspende meu corpo
No ar

Explica
Suscita
Me excita
E minta
Que o pavor da tua voz
É me ver, de vez,
Entrar

Murmura
Teu grito
Me cala com o açoite
Que é o silêncio
E resmunga
E respinga
A dor do teu corpo
Ao me entregar

30 agosto 2007


“Procelária”

Sophia de Mello Breyner- 1967


É vista quando há vento e grande vaga

Ela faz o ninho no rolar da fúria

E voa firme e certa como bala


As suas asas empresta à tempestade

Quando os leões do mar rugem nas grutas

Sobre os abismos passa e vai em frente


Ela não busca a rocha, o cabo, o cais

Mas faz da insegurança sua força

E do risco de morrer, seu alimento


Por isso me parece imagem justa

Para quem vive e canta no mau tempo

24 agosto 2007

A mulher tem que ter coragem para se entregar porque toda entrega é um ato artístico. E a arte não é feita assim, de qualquer jeito. O artista espera. Se inspira. É fecundado. Gesta. Faz nascer. Alimenta. A natureza da mulher é ontologicamente artística. Talvez venha daí a pouca visibilidade da mulher na arte, ao longo da história. As obras femininas são expressas cotidianamente nos bastidores. Há tempos já intuo que uma das diferenças marcantes entre homem e mulher é a questão do tempo. A mulher se demora mais, o tempo da gestação... Faz sentido isso? Talvez. Taí um tema para um bela tese.


Fim do meu inferno astral, tempo de eu aniversariar.
E eu nasci no Dia Internacional da Igualdade da Mulher: intrigante isso.

10 agosto 2007

"Agora, para romancear a vida, não é preciso encontrar destinos grandiosos. Basta enxergar o detalhe que sempre está presente num canto escuro da realidade cotidiana, ao alcance de uma ampliação fotográfica."
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Contardo Calligaris
em seu artigo sobre o cineasta morto Michelangelo Antonioni,
publicado na Ilustrada, na Folha de São Paulo, em 09/08/07

08 agosto 2007

31 julho 2007

Insone, faltava o sonho.
No escuro, o susto:
só o sussurro do surto.
Insano, faltava o sono.

-O repouso é vertigem para os que não dormem.
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- Não solta da minha mão...






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21 julho 2007


Se cerrasse os olhos,
a lágrima escorreria:
teria, então,
permissão para fugir

***


16 julho 2007

PIRATA

"Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento como os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo desse sonho e nunca durmo."

Sophia de Mello Breyner

declamada por Maria Bethânia
no "Mar de Sophia"

11 julho 2007

(...)
Para ir para frente,
alguns passos para trás,
para dar impulso
(...)

03 julho 2007

Ouvindo “Third Stone From The Sun”, Jimi Hendrix


ENTENDIMENTO
Todas as visitações que tive na vida, elas vieram,

sentaram-se e não disseram nada.

Lispector, em “Para não esquecer”