15 junho 2009

Da Aurora Até o Luar
Arnaldo Antunes / Dadi Carvalho

Quando você for dormir
Não se esqueça de lembrar
Tudo que aconteceu
Da aurora até o luar
Olho de janela
Nuvem de algodão
Pele de flanela
Sopa de vulcão
Borda de caneca
Bola de papel
Ferro na boneca
Lágrima de mel
Toda noite lembra o que aconteceu de dia
Sonha para o sono vir
Quando você for dormir
Quando você se deitar
Deixa o pensamento ir
Sem ter nunca que voltar
Música vermelha
Pássaro de flor
Chuva sobre a telha
Beijo de vapor
Riso no escuro
Lua de beber
Voz detrás do muro
Medo de morrer
Toda noite cria o que acontecerá de dia
Para o novo dia vir

01 junho 2009

GERIBÁ
do querido amigo artista Marco Braz
(registro de um reencontro)

28 maio 2009

(...)
sem prazo
a ritmos revolucionários
pagamos por erros
e outras coisas.
moscas morrem
em contos de fadas,
enquanto, romances
fazem a revolução,
em silêncio,
sem ninguém perceber.

Berimba de Jesus
em seu livro "encarna" (2008)

23 abril 2009

VERANIL
VEROSSÍMIL
VIRIL?
VIL!
PAVIO

17 abril 2009

Abraçei o mar na lua cheia
Abraçei o mar
Abraçei o mar na lua cheia
Abraçei o mar
Escolhi melhor os pensamentos, pensei
Abraçei o mar
É festa no céu é lua cheia, sonhei
Abraçei o mar
E na hora marcada
Dona alvorada chegou para se banhar
E nada pediu, cantou pra o mar (e nada pediu)
Conversou com mar (e nada pediu)
E o dia sorriu...
Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema
Presente eu fui levar
E nada pedi, entreguei ao mar (e nada pedi)
Me molhei no mar (e nada pedi) só agradeci

AGRADECER E ABRAÇAR
Maria Bethânia

30 março 2009

MAS A VIDA É REAL E DE VIÉS

01 março 2009

Angustia - Salvador Dali

19 fevereiro 2009

Bastidores
Chico Buarque

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim
E me tranquei no camarim
Tomei o calmante, o excitante
E um bocado de gim

Amaldiçoei
O dia em que te conheci
Com muitos brilhos me vesti
Depois me pintei, me pintei
Me pintei, me pintei

Cantei, cantei
Como é cruel cantar assim
E num instante de ilusão
Te vi pelo salão
A caçoar de mim

Não me troquei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar

Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim

Mas não bisei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que nunca mais vais voltar

Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis
Bêbados e febris
A se rasgar por mim

Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim

08 janeiro 2009

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão:

outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera:

outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta:

outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente:

outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem:

outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte

— que é uma questão de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar

25 novembro 2008

ISSO TAMBÉM VAI PASSAR.

07 novembro 2008

"Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim."

Caio Fernando Abreu

19 setembro 2008

Posso estar só
Mas, sou de todo mundo
Por eu ser só um
Ah, nem! Ah, não! Ah, nem dá!
Solidão, foge que eu te encontro
Que eu já tenho asa
Isso lá é bom, doce solidão?
.
.
.
Doce Solidão
Marcelo Camelo

05 agosto 2008

.
.
.
PRÓ-CESSAR?
.
.
.
(ou: a morte transforma a vida em destino,
já diria Sartre, não lembro com quais palavras...)
.
.
.

30 julho 2008

DA POESIA,
PÓ E AZIA.


SÓ.

27 abril 2008

22 abril 2008


Marina cadê a flor que arranquei pra lhe ofertar?
Marina cadê o amor que ocê tem e não quer me dar?

E ela foi embora levando poeira
E à minha maneira eu tento viver
Tocando a viola um pouco mais triste
Se alegria existe, Marina cadê?

Se a alegria existe
Teresa Cristina e Grupo Semente

imagem: Girassol, Gustav Klimt

08 abril 2008

"até que viesse uma justiça um pouco mais doida. uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. na hora de matar um criminoso- nesse instante está sendo morto um inocente. não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que refugiamos no abstrato. o que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno."
.
trecho do texto "Mineirinho", de Clarice Lispector, em "Para não esquecer"