
24 agosto 2008
05 agosto 2008
30 julho 2008
27 abril 2008
22 abril 2008

Marina cadê a flor que arranquei pra lhe ofertar?
Marina cadê o amor que ocê tem e não quer me dar?
Marina cadê o amor que ocê tem e não quer me dar?
E ela foi embora levando poeira
E à minha maneira eu tento viver
Tocando a viola um pouco mais triste
Se alegria existe, Marina cadê?
Teresa Cristina e Grupo Semente
imagem: Girassol, Gustav Klimt
08 abril 2008
"até que viesse uma justiça um pouco mais doida. uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. na hora de matar um criminoso- nesse instante está sendo morto um inocente. não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que refugiamos no abstrato. o que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno."
.
trecho do texto "Mineirinho", de Clarice Lispector, em "Para não esquecer"
25 março 2008
AMANHECENDO
Logo de manhã, bom dia...
Logo de manhã, bom dia...
Um dia quero mudar tudo
No outro eu morro de rir
Um dia tô cheia de vida
No outro não sei onde ir
Um dia escapo por pouco
No outro não sei se vou me livrar
Um dia esqueço de tudo
No outro não posso deixar de lembrar
Um dia você me maltrata
No outro me faz muito bem
Um dia eu digo a verdade
No outro não engano ninguém
Um dia parece que tudo
Tem tudo prá ser o que eu sempre sonhei
No outro dá tudo errado
E acabo perdendo o que já ganhei
Logo de manhã, bom dia...
Logo de manhã, bom dia...
Um dia eu sou diferente
No outro sou bem comportada
Um dia eu durmo até tarde
No outro eu acordo cansada
Um dia te beijo gostoso
No outro nem vem que eu quero respirar
Um dia quero mudar tudo no mundo
No outro eu vou devagar
Um dia penso no futuro
No outro eu deixo prá lá
Um dia eu acho a saída
No outro eu fico no ar
Um dia na vida da gente
Um dia sem nada de mais
Só sei que eu acordo e gosto da vida
Os dias não são nunca iguais!
.
Bom dia
(Composição de Swami Jr e Paulo Freire)
12 fevereiro 2008
24 dezembro 2007
16 dezembro 2007
Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?
*
Hilda Hilst
14 dezembro 2007
20 novembro 2007
15 novembro 2007
Aflição de ser eu e não ser outra
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera
Não saber se se ausenta ou se te espera
Aflição de te amar, se te comove
E sendo água, amor, querer ser terra
*
"Aflição", de Hilda Hilst
10 novembro 2007
Canto Nietzschiano*
Gustavo de Castro
E aquele, entre os homens, que não quer voltar ao pó,
É preciso antes que comece a cantar em qualquer canto
um canto de dor.
E aquele, entre os homens, que não quer gestar intrigas,
É preciso antes que aprenda a calar em todas as línguas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer de solidão,
É preciso antes que comece a beijar todas as bocas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer sem verdade,
É preciso antes que aprenda a acreditar em todas elas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer de tédio,
É preciso antes que aprenda a ser todos de todas as maneiras.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer íntegro,
É preciso antes que saiba silenciar todas as falas.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer sensível,
É preciso antes que saiba sentir tudo de todas as maneiras.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer são,
É preciso antes que saiba ter todas as loucuras.
*declamado por Antonio Abujamra, em 07/11, no programa "Provocações"
Gustavo de Castro
E aquele, entre os homens, que não quer voltar ao pó,
É preciso antes que comece a cantar em qualquer canto
um canto de dor.
E aquele, entre os homens, que não quer gestar intrigas,
É preciso antes que aprenda a calar em todas as línguas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer de solidão,
É preciso antes que comece a beijar todas as bocas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer sem verdade,
É preciso antes que aprenda a acreditar em todas elas.
E aquele, entre os homens, que não quer morrer de tédio,
É preciso antes que aprenda a ser todos de todas as maneiras.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer íntegro,
É preciso antes que saiba silenciar todas as falas.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer sensível,
É preciso antes que saiba sentir tudo de todas as maneiras.
E aquele, entre os homens, que quer permanecer são,
É preciso antes que saiba ter todas as loucuras.
*declamado por Antonio Abujamra, em 07/11, no programa "Provocações"
26 outubro 2007
16 outubro 2007
08 outubro 2007
03 outubro 2007
(...)“Os pecados mortais clamavam em mim por mais vida, e clamavam com vergonha, os pecados mortais em mim pediam o direito de viver. Minha gula pelo mundo: eu quis comer o mundo, e a fome com que nasci pelo leite, essa fome quis se estender pelo mundo, e o mundo não se queria comível. Ele se queria comível, sim, mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava. Mas a fome violenta é exigente e orgulhosa, e quando se vai com orgulho e exigência o mundo se transmuta em duro aos dentes e à alma. O mundo só se dá para os simples, e eu fui comê-lo com o meu poder e já com esta cólera que hoje me resume. E quando o pão se virou em pedra e ouro aos meus dentes, eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito, e era com o mesmo material que eu iria a ele. E depois foi quando o amor pelo mundo me tomou: e isso já não era a fome pequena, era a fome ampliada. Era a grande alegria de viver - e eu pensava que esta, sim, é livre. Mas como foi que transformei, sem nem sentir, a alegria de viver na grande luxúria de estar vivo? No entanto, no começo era apenas bom e não era pecado. Era um amor pelo mundo quando o céu e a terra são de madrugada, e os olhos ainda sabem ser tenros. Mas eis que minha natureza de repente me assassinava, e já não era uma doçura de amor pelo mundo, era uma avidez de luxúria pelo mundo. E o mundo de novo se retraiu, e a isso chamei de traição. A luxúria de estar vivo me espantava na minha insônia, sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme, que até se dorme, meu Deus. E a água, na minha luxúria de viver, a água se derramava pelos dedos antes de chegar à boca. E eu amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Eu não sabia que só o meio-termo não é pecado mortal, eu tinha vergonha do meio-termo. Os pecados são mortais não porque Deus mata, mas porque eu morro deles. Eu é que não pude arcar com os pecados mortais. O que não consegui com eles, é isso que hoje me violenta e a que respondo com violência."(...)
UMA IRA, em "Para não esquecer", Clarice Lispector
UMA IRA, em "Para não esquecer", Clarice Lispector
20 setembro 2007
Perdeu o sonho e sorriu. Abriu a gaiola e ele escapou: seu lugar era o céu. Pés no chão, cabeça pousada no abraço, fincada num espaço que se habita. Perdeu o céu e ganhou um chão: que parecia uma porta ou um sofá para se sentar. E o viu ao seu lado, refletidos na tela, e os olhares se cruzando e ela tentando fugir e sumir mas ele não deixava e a criava num lugar no espaço seu... O tempo corria rápido no peito e no silêncio era suspenso e contava o que não se pode pedir... “Mas eu não quero brincar, só quero ficar e pousar no seu abraço que me protege e me deixa voar no corpo seu que me cobre e encolhe meus sonhos por me dar a vida que espera lá fora enquanto estamos brincando que tudo existe, quando estamos a sós...”
14 setembro 2007
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